Crescimento das ações por assédio moral redefine a agenda de governança corporativa
O Tribunal Superior do Trabalho divulgou que entre os anos de 2020 a 2025, a Justiça do Trabalho recebeu mais de 600 mil casos de assédio moral. Com alerta para os quatro primeiros meses de 2026, que contaram com mais de 30 mil processos.
O aumento exponencial das ações envolvendo assédio moral revela uma mudança estrutural. Além disso, as empresas passaram a perceber de outra forma os fatores de riscos psicossociais dentro da agenda de governança corporativa, compliance trabalhista e gestão de riscos empresariais.
O fenômeno não decorre apenas de maior conscientização dos empregados ou ampliação da litigiosidade. Ele reflete um novo nível de intolerância institucional do mercado. Desde o Judiciário e dos órgãos regulatórios em relação a falhas de governança humana, até ambientes organizacionais incapazes de prevenir ou interromper práticas abusivas.
A discussão também se conecta diretamente à evolução da agenda ESG. Sobretudo, nos pilares Social e Governança, além do fortalecimento regulatório relacionado aos fatores de riscos psicossociais, inclusive após a atualização da NR-1. Movimento que ampliou a expectativa regulatória sobre a capacidade preventiva das empresas em relação à organização do trabalho e aos modelos de gestão potencialmente adoecedores.
A “epidemia de casos” se tornou indicador relevante de fragilidade de governança corporativa, deficiência de controles internos e risco de instabilidade institucional. O mercado passa a interpretar esses números como um alerta importante.
Em operações de M&A, due diligence e captação de investimentos, a análise deixou de se restringir ao volume de contingências trabalhistas provisionadas. Investidores, auditorias e fundos passaram a avaliar elementos qualitativos relacionados à governança humana da companhia. O que inclui efetividade dos canais de denúncia, maturidade de compliance trabalhista, estabilidade das lideranças e capacidade institucional de gerenciamento de crises.
O tema já tem se sobressaído em pontos como o valuation, contingências ocultas, retenções de preço, cláusulas indenizatórias e mecanismos de earn-out, especialmente quando existem indícios de passivos reputacionais ou falhas sistêmicas de supervisão interna.
O mercado passou a tratar cultura organizacional e governança humana como ativos intangíveis relevantes na geração de valor de longo prazo. Ambientes corporativos marcados por deterioração institucional, alta litigiosidade ou recorrência de denúncias tendem a elevar percepção de risco operacional, regulatório e reputacional.
Riscos da falha de gestão
Com tantas denúncias, Vanessa Sapiencia aponta que o principal risco relacionado à cultura organizacional não está na existência da denúncia. Ela aponta a incapacidade institucional de detectá-la, investigá-la e tratá-la adequadamente antes que a crise se torne pública, como o maior agravante.
Quando o empregados não percebe segurança, confidencialidade ou efetividade nos mecanismos internos, ocorre a externalização da crise. As empresas deixam de administrar a discussão apenas internamente e passam a lidar simultaneamente com o Judiciário, Ministério Público do Trabalho, imprensa, investidores e mercado segurador.
— Portal Análise